ninguém ampara o cavaleiro do mundo delirante

Sábado, Setembro 08, 2007


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É isso. Depois de muitos anos, e de uma ida-e-vinda de por aqui, resolvi mudar. Mudei. E mudo, porque o que importa não é meu som, mas a voz das minhas mãos.

postado por Leandro Durazzo 4:59 PM
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Sexta-feira, Maio 04, 2007

existiu uma mulher no tempo antes do tempo... e ela erguia o mundo.
diziam que muitos reis e imperadores e generais - e até semideuses - carregavam o mundo nas costas, mas poucos conheciam essa mulher que deitava nua sobre o mar, com o rosto submerso olhando a profundidade do mais profundo mar da terra.
nas partes do mar em que ninguém ousa entrar, existem e sempre existiram inúmeros mistérios, segredos e perigos. maldições, dizem.
apenas tal mulher sabia, porque, afinal, ela vivia desde o começo de todo o universo olhando para aquelas águas e conhecia seus habitantes, ainda que não fosse amiga de todos.
e não era mesmo.
descobriram que uma mulher conhecia as profundezas do oceano só em um momento trágico quando, de sob a terra, por dentro do mar, um monstro enorme e nunca antes visto surgiu, destruindo a Cidade.
em pouco tempo a Cidade era ruínas, e a mulher, pela primeira vez em muito tempo, surgiu na praia
por um pequeno momento.
nua, à luz do sol poente, olhou o monstro que, temendo, retornou aos mares profundos e escuros.
ninguém sabe por que ele fugiu, ninguém sabe quem era aquela mulher que sumiu logo em seguida.
só alguns poucos sábios, ou atormentados.
ou talvez os dois.

postado por Leandro Durazzo 12:47 AM
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Domingo, Abril 08, 2007

Existem pequenas pessoas que nunca se queimam. Nunca se queixam não dóem não sofrem e nunca, nunca ficam tristes.
Pessoas pequenas que correm de alma lavada pro rumo da morte e morrem. Existem pessoas que correm e sobem montanhas com olhos cerrados. Que descem em carvalhos ao centro da terra, que enterram corações em lares de pedra. Existem pessoas pequenas pessoas que encarnam a vida e os sonhos dos outros. Algumas, entretanto, encarnam a si. E, assim, perdem um pouco do sangue do outro demônio que um dia viria a surgir.
Existem também as derradeiras pessoas que encarnam o mundo. Que sangram o fluido magia das letras e orações. Pessoas que, assim como o mundo finito, em algum momento se entristecem e morrem.
E morrem. E dóem. E nisso carregam consigo um mundo inteiro que, talvez por descuido ou por desrespeito, errou tão ou mais que as pessoas que vi.

postado por Leandro Durazzo 5:20 AM
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Quinta-feira, Abril 05, 2007

Ele observava calmamente, com água nos olhos, aquela longa e distante bela praia. Sabia ser uma praia nova, de areia branca quente e quase pura. Era uma praia menina na qual o mar antigo e azul vinha repousar. Do alto da árvore em que estava, o mundo podia sorrir. Sorria com um brilho intenso brancoazulado - quase areia e mar. Sorria e derramava leves oceanos de cristal por sobre a face. A praia menina era a mais bela e a mais nova de todas ali (em seu fundo olhar).

Com as lágrimas cristalinas desceu o mundo à terra. Agradeceu ao abrigo à árvore e caminhou rumo ao mar. Pisando na areia quente e terna - muito diferente daquelas gastas terras por onde andara - o mundo sentiu mais vida. O mar, velho amigo seu de muito tempo - desde sempre - acenou com tal vigor que despertou aquela praia do sono em que estava.

(A praia, que era pequena e nova, acordou naquela hora como acordam as crianças. Bocejou, abriu os olhos, limpou do rosto e de sua vista a areia do tempo e sono, esticou os braços, deu oi ao dia e levantou).

As areias de seu corpo refulgiam como corpos bronzeados, todos eles em um só. Seus cabelos, longos e ondulares como o mar de onde vinham, brilhavam e faziam o mundo lembrar do dourado de outras eras. Mantinha ainda algo do mar: trazia nos olhos as águas profundas e frescas e eternas, e ao mundo parecia que estava em casa.

Menina que era, a praia olhou assustada para o mundo. Parecia ver ali uma certeza e experiência que a tornavam mais e mais menina. Refletida nas águas escuras e primordiais dos oceanos - que o mundo ostentava - aquela pequena bela praia se via como criança. Buscou o mar, que ainda estava ali. Temeu chorar mas mostrou nos lábios o tremor da incerteza. O mar, então, sorriu e abençoou aquela praia, desejando que encontrasse a imensidão de um olhar. (Antes de ir - pois o mar sempre ia embora, não podia ficar parado - colocou aos pés da praia uma branca e grande pérola. Pérola de conforto, sabedoria e eternidade).

Despediu-se do mundo - o mar - por ninguém sabe quanto tempo mais. Virou as costas à praia e seguiu para o horizonte. Por um momento, um instante, por um lampejo de sol o dia parou. O mar não rugia mais, as aves não voavam e as plantas calaram a voz. Estava apenas, ali, o mundo e aquela praia. Ainda que não soubesse, a praia mostrara ao mundo - inerte, pesado e velho - o sabor de uma brisa nova.

postado por Leandro Durazzo 2:25 AM
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Domingo, Março 04, 2007

A primeira gota de chuva caía quando, do pensamento puro do Primeiro, o pequeno homem surgiu nu e sujo de vento. Surgira no ar, quilômetros acima do oceano extenso interminável sobre o qual cairia aquela gota recém-nascida. Seu corpo era bege como uma tempestade de areia, e de suas costas um enorme par de asas - maior do que ele próprio - se abria, mostrando cinzentas penas num desenho redondo, espiral e simétrico.
Espalmadas as asas formavam o símbolo eterno do infinito imortal. Fechadas, juntas uma à outra, davam a impressão de um grande circular casco sobre o corpo daquele ser. Planando suavemente, observando as águas sob seus ventos constantes, o homem procurou entender o que fazia ali, o que deveria fazer. Olhou pra suas mãos, para a redoma de céu azul-escuro que cobria o oceano, para o oceano verde e cheio de uma vida ainda informe, olhou pra si próprio e pediu por ajuda.
A primeira chuva, em sua queda, olhou para o homem. Depois, num súbito lampejo, enviou uma gota sua de volta àquelas nuvens belas e ancestrais. A mensagem da chuva que subiu naquele dia - para nunca mais fazer o mesmo - era simples e singela. Sorrindo, as nuvens abriram espaço para que a luz forte do sol penetrasse no céu azul e úmido.
Tocando o corpo nu do homem parado em pleno ar, o sol cantou a primeira canção de harmonia elemental. Ao som daquele coral de mil vozes inigualáveis o homem desceu ao oceano, no ponto mais extremo, onde encontraria o céu e o mar. Dali, banhado pela chuva e pelo sol, trilhado pelo vento, descreveu um caminho semicircular ao topo do firmamento e de volta ao oceano, dessa vez na outra extremidade.
Nos dois pontos em que seus pés pisaram sobre as águas houve terra. Daquela terra, pouca e tímida, o mundo teve início. De seu trajeto junto ao céu foi feita sua assinatura, que em dias como aquele pode ser pintada, multicor, sob o nome de arco-íris.

postado por Leandro Durazzo 9:58 AM
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Sábado, Março 03, 2007

Quando as águas eternas e plácidas daquilo que era não-tempo, não-antes de qualquer início, pois era fora da História (e fora do espaço, exceto o espaço calmo e imóvel da mais pura eternidade); quando aquelas águas molharam as mãos do deus que dormia, fez-se som. A água, antes imóvel, ribombou como o trovão num céu que não havia. Fez-se som, calor, cor e movimento, e as águas viram vida. Da pele negra e refulgente das mãos daquele ente saíam pouco a pouco novas formas vidas tons. Não era nada como o que havia ali, até aquele não-momento anterior em que nada havia.
Não era deus, não era homem, não era água serpente ou som. Saíam das mãos do Verbo, do Lótus, do Sonhador - saíam lemniscatas sinais do infinito azul, e saíam tão aos pares, tão unidas e belas, que por pouco tempo as águas suportavam o seu lastro. Assim, quando iam surgindo, ansiosas por nadar rumo à eternidade, caíam com pesos mágicos direto ao fundo do mar, no mar que não tinha fim.
E cansadas de esperar pelo encontro do chão, no fundo daquele oceano eterno de criação, os símbolos do infinito pouco a pouco se separaram. Cada metade levava consigo, pro lado que acaso fosse, a lembrança da inteireza que um dia reconhecera. Quebradas em duas partes, cada uma das infinitas semi-eternidades se espalhou no oceano azul profundo e primordial. O mar do deus repousante, com todas as fontes e dons, brilhou num perene instante. E viu, vê e verá os peixes, os donos das águas, espalharem até o fim de tudo suas formas, seus tempos e as ondas de suas danças.

postado por Leandro Durazzo 3:42 AM
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Sexta-feira, Março 02, 2007

O medo demo

Foi que certa vez - na vez última das certezas - o homem se viu no fundo inferno. Caiu e levantou e abriu os olhos assustados de quem não sabe mesmo o que aconteceu. O diabo apareceu, sentado num banquinho encurvado com a pele enrugada de um velho anjo velho, com asas amarradas e tudo mais. Não era de fato a imagem que o homem esperava ter do senhor de toda profundeza, mas indiscutivelmente era o demo. Medo que se viu na face do homem num lampejo de horror errado e inseguro como criado no profundo fundo das escurezas daquele escuro.
- Ah, que bom mesmo mesmo ter alguém novo por aqui - fez o diabo.
Baque ensurdecedor se ouviu na mente do homem inerte e presente frente ao anjo da morte sentado carente. Que diabos - pasmem! - quis dizer aquele cara com "alguém novo por aqui"? Então não é o inferno o lugar mais povoado e populoso e lotado e desastroso do qual se têm notícias? Por isso disse:
- Meu senhor, caro diabo, com respeito por você peço que queira me dizer que de fato vem a ser "mesmo bom alguém ter" aqui no último lugar da terra.
O velho - velho mesmo, cabelos brancos e mui calvos sobre rosto enrugado e velho e triste como de um vô bondoso e cansado por uma vida de regrado esforço, desde moço - olhou mais uma vez para o homem e sorriu intimidado. "Claro que digo, meu bom homem".
- Lascou-se tudo. Agora mesmo é que de nada eu entendo. Demo velho e feito anjo eu até posso engolir, mas demônio bom ao modo de educado se existir e não ter sobre seus súditos - se assim posso dizer - a força bruta e o poder de fazer sofrer até os fins da eternidade... ah não!
- Acontece - pôs-se a falar - que a imagem qual me tomam lá em cima nada tem de verdadeiro conhecimento, nem de hoje e nenhum tempo. Sempre fui assim como estou, e sempre o inferno foi mirrado desse jeito.
- Mas que história. Só falta dizer agora que Deus é mau de se jogar fora.
- Aí varia da visão. No meu caso, mais de fato interessante, ele é um bom pedante poderoso e maltratão. Sabe, sim, mas claro que tu gostaria de um chá com bolachinhas antes dessa narração.
Homem com a mão na face deprimida de tal modo, se contasse ninguém cria. "Dá-me lá essas bolachas e sigamos co'a bravata. Como assim, Deus maltratão"¿
- Tá bem - diz o diabo dando o bule - Sabe assim que no começo dessa toda Criação Deus vivia com seus anjos lá no alto mais distante onde nem mesmo avião... pois foi assim que deu início à saga dos homens de Cristo, da glória e da danação.
O que dali se seguiu ninguém imaginara. A saga era tão incrível que o diabo entre risos até se envergonhava.
- Foi no dia que o divino chegou no céu com um papel grande grande sem limite, todo escrito e fulgurante e potente e deslumbrante. Disse ele ali na hora que eram as leis do Universo, toda aquela escritura que ocupava frente e verso. Assim que acabou o dito teve tanto alvoroço e cochicho escondido que não teve nenhum anjo que não tomasse um partido.
- E por que que foi assim? O que havia de haver ali no céu, naquela hora, que não podia nenhum anjo ousar de ficar de fora?
- Ouve bem o ocorrido. Até aquele momento não havia no Universo nada além de anjo e divindade felizes no firmamento. Nada de regras nem pesares nem castigo nem altares. Deus tirou não sei daonde a idéia de mudar. Definiu pra todo mundo cargo fardo e lugar. Foi que anjos se ergueram com as chamas imponentes e olharam feito feras para o todo onipotente. "Nunca mesmo hemos de ter definidas as vontades, as miragens e o poder".
- Dessa revolta que o Pai criou teu reino e você? Dos rebeldes revoltosos que não quiseram ceder?
- Forma alguma, meu bom homem. Dos nervosos anjos contrários aos desígnios do Temerário foi que surgiu a humanidade. Deus não deu nem meio tempo logo que os anjos falaram e apontando o seu dedo derrubou todos no barro. Lembro até hoje a quantidade de asas sem donos que formaram as nuvens alvas.
- Então aquela história de Lúcifer, anjos caídos...
- Tudo lenda. Anjos caídos são vocês que nem sabem o que fazem nem fizeram. Presos até hoje à liberdade de curtir tudo que querem sem regras e sem louvar nada além do que fizerem. Depois da vossa queda Deus olhou com muito ódio para todos que ficaram. "Qual de vós, bons seguidores, com a lâmina de fogo da palavra criadora honrará as minhas leis de forma a submeter todo e qualquer poder sob suas regras duras?" E então me escalei. Ergui bem alto o braço e abri as minhas asas de forma que toda a graça de nossa divinidade pudesse cair em mim. Burro. Depois de todo esse tempo realmente sei que as regras não fazem mais que andar às cegas ao redor do castramento. "Serás então o guardião das profundezas de meu Universo. Para lá serão mandados todos os que assemelharem vosso rosto às suas preces e louvores incontestes. Que sejais o gurdião de toda submissão e daquilo que veneras". Besta-fera.
- Nunca mesmo imaginei tão cruel destinamento.
- Nem eu mesmo poderia, se não fosse meu tormento. Deve agora entender o motivo de por que isso aqui ser tão deserto. No céu sobraram uns poucos servindo diretamente às mãos do onisciente. Depois de que todos morrem, contanto que seja homem, vem direto para cá se na vida fez honrar todas regras regras regras. Se não - o que sempre acontece - retornam a encarnar em homens novamente e vivem sem as asas, fazendo o que há de parecer mais atraente.
O homem embasbacado estendeu a sua mão, tocou o prato de louça e comeu das bolachinhas com o chá da perdição.

postado por Leandro Durazzo 3:17 AM
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Quinta-feira, Março 01, 2007

"Minha menina", diziam lábios que flutuavam distorcidamente naquele rosto etéreo, "abra seus braços e sonha". A menina, com uma faixa de seda branca enrolada em seus seios e quadril, mantinha o rosto sereno sorrindo enquanto voava ao vento sobre o mar. Areia da cor do bronze subia em nuvens e dava o tom de eternidade àquele vôo louco. Era um sonho, ela sabia, mas não sabia quão real um sonho podia ser.
O corpo que voava ao seu redor era clarotransparente, como água. Mudava de forma ligeiramente a cada olhar que a menina lhe dirigia. Sua forma, entretanto, por mais que mudasse, não perdia a serenidade e o encanto que exercia sobre ela. Não perdia o sorriso calmo dos lábios fluidos nem o toque gelado das mãos presentes. O corpo de água girava em torno voando como se ele próprio fosse uma lufada de vento. Passageira, mas que em sua brevidade agravasse todo o tom de importância de uma vida. A vida da menina que flutuava, naquele exato momento atemporal do sonho, coloria em seu corpo seminu pelo menos duas marcas. Uma pequena borboleta cor-de-vida estava ali, pousada sobre o ombro belo e branco da menina. De suas costas, mal havia o homem-água circundado sete vezes o ar ao seu redor, um rápido beija-flor levou o néctar da pele jovem pro mais alto céu azul. A menina abriu os olhos e notou o que ocorria. Sorriu pro beija-flor que longe já se ia e olhou pro corpo que rodava. O homem - a água, aquele ser de vida desperta e sonho mágico - parou por um momento seu eterno circular. Olhou para a menina com olhos cor de nuvens e tocou com o dedo úmido o ombro ali desnudo. Tocou. A borboleta, viva, batia as asas lentamente levantando vôo.
O vento das asas claras levou a faixa de seda consigo por sob o céu. O homem, feito chuva, virou somente água e voltou praquele mar. A menina, coberta pelo sonho, viu que a borboleta enfim alçara vôo.
E sorriu.

postado por Leandro Durazzo 3:01 AM
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Terça-feira, Fevereiro 27, 2007

quando criaram o mundo - deus, deuses, o big bang ou qualquer outro motivo - quando o mundo surgiu e foi surgindo, e os seres e as plantas e todos eram vivos e se entendiam, uma raça bonita e escura, da cor da terra, com cabelos claros feito água e olhos que lembravam furacões; uma raça brotou de uma caverna profunda e negra que existe no meio do mundo. e era uma raça que tinha coração... porque eles lembravam ainda como era a cor e o sabor da lava que corria nas veias da terra toda. o coração deles era quente, grande e vermelho-alaranjado e explodia em fogo, espirrava pela superfície da terra aquilo que antes ninguém sabia existir. eles criaram os vulcões, e iam pra lá sempre que sentiam saudades do interior do planeta. mas eles não voltavam pro interior da terra, porque suas almas eram parte água, parte vento, e seus corações eram fogo e eles vagavam pelos campos e mares, e voavam com os ventos que vinham do sul. e conheciam a língua dos pássaros, das pedras, das plantas e dos espíritos todos que ainda não eram carne.
hoje, poucos dessa raça ainda existem. o que existe, agora, são seres humanos que vieram depois... que brotaram do pensamento Uno de um deus controlador. e esses homens baniram do mundo a raça da terra... e esses homens fizeram a História da humanidade.
e são teus avós, e teus pais, e teus ancestrais mais remotos. e os ancestrais mais remotos da minha própria família, que conheceram, pelo casamento, ancestrais vivos do povo da terra.

postado por Leandro Durazzo 12:51 AM
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Sexta-feira, Fevereiro 23, 2007

Ontem você disse o que faltava. Como um buraco no qual caio, que não para o movimento mas me tira da estrada. Ontem você disse devagarosamente aquilo que teu coração pulsante gritava dentre em pouco - gritava sempre feito louco mal sabendo que eu sabia.
Deixei que fosse dito por um tempo. Deixei dizendo por dois minutos e meio, com cirúrgica precisão. Deixei dizer deixei e ouvi com algum deleite teu cronometrado gaguejar. Ouvi como quem ouve o que não se pode negar ou fugir mas sabendo que dali não sairia nada mais.
Se eu sabia desde sempre e desde cedo esperava, se ouvia o que tinha bem em mente e que sabia que viria cedo ou tarde - e nunca tarda - eu não tinha o que temer. Nunca temo. Sempre tem(p)o.
Sete segundos no dia de hoje - poderia tudo ter se estendido por sete minutos ou horas ou dias semanas meses ou anos. Poderia. Mas sete segundos bastaram me bastaram se bastaram e bastarão cedo ou tarde novamente quando todos sonharão.
Durante a confissão dessa setença meu coração lá distante - numa velha antiga mala - palpitou e deu uns saltos. Olhos que se encheram de lágrimas em pouco tempo estavam secos. Melodramas que envolvem minhas letras não querem mesmo nesse mundo no fundo da coisa toda eles não querem dizer nada.
Ouvindo teu gaguejar tua frase incompleta ouvindo e vendo um pouco tua alma ali aberta eu sorri e 'até logo'. Sou o caminho, e o caminho não exige explicação.

postado por Leandro Durazzo 4:23 AM
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Terça-feira, Fevereiro 20, 2007

Existe uma menina no alto da colina. Uma menina nua, velada apenas pela névoa que a cerca. A menina caminha lenta e suavemente. A menina desce. A menina ri. Morena, coroada pela luz da lua, a menina nua me observa e vem, novamente, caminhando por aqui. Minha rua se recolhe, se retrai, minha rua grita pra só eu ouvir. A menina nua põe os pés na rua? A rua sorri. A rua tem medo, entretanto, a rua tem pranto que encharca o véu, que umedece a névoa e que reluz na lua, a rua flutua ao passo da moça que se torna toda e permanece nua.
A menina nua que observa e anda já não mostra medo se a rua sorri. A menina agora mostra sua cara, mostra sua alma, que ainda é nua mas que se acalma. A menina anda. Minha rua canta um som muito antigo que se faz ouvir até o infinito.
E sempre.
E mais.
Minha rua despe todas as certezas, todas as pobrezas e as falsas faces. Minha rua canta no alto da colina. Para a lua. E pra menina.

post scriptum: 'e o ar respirou duas vezes passou na colina e soprou uma brisa de dor e ausência'

postado por Leandro Durazzo 12:52 AM
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Sábado, Fevereiro 03, 2007

os olhos de seus olhos observavam vagarosamente o movimento das palavras. no instante belo de um som dourado suas falas se criavam. a trajetória que os corpos percorreram no espaço era vacilante, temerosa. os corpos não se moveram. os olhos ainda olhavam aquela fala aquele fogo que incendiava o mais puro seu olhar. ela só olhava. ele só falava. e, assim, por um momento-madrugada, ao menos, entenderam suas almas.

rio de janeiro
ontem

postado por Leandro Durazzo 9:04 AM
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Terça-feira, Janeiro 09, 2007

- a História da paixão - cap. III
(leia cap. I e II para melhor compreensão)

A flor foi voando longe contente com o vento sul. Voou e gritou à terra que recebesse em parcelas de volta o que era seu. Conforme ia voando em direção ao grande norte a flor desprendia leve as pétalas de sua sorte. Cada pétala que caía formava no manto chão uma rósea vítria orbe de destino e predição. Um caminho de sete passos fez-se rumo ao campo ao lago fez-se de onde o anjo estava. Rumo à água da fonte pura sete orbes de luz da lua demarcavam a trilha certa da jornada que levaria o anjo e a poesia de volta à mãe amada.
Alalaf tocava o chão com os pés e com o sangue. Pingando de suas costas o sangue tingia as rosas de vidro e de milagre. Pingando de sua mão a tinta rubra da pena tingia o chão que levava ao lago do coração. Descanso de certa forma era o que o anjo olhava. Buscava tranquilidade e paz e serenidade sereno e solidão. Buscava na água calma na água fria de maio buscava a mãe o abraço o colo útero e raro. Alalaf derramava uma lágrima de dor.
Doía o sofrimento ausência doía o tempo os cortes nem mais lembrava. Doía ter dado a alma a pena doía a fronte doía ter visto a luz do sorriso o horizonte aquela menina. Doía a sina que carregava. O anjo bom anjo velho sereno olhava o lago e o braço que no embalo levava a água pro mar. Sorria por dentro dalma sorria com aquela calma que só o Caído tem. Tingia o chão e os passos gritava às feras e pássaros palavras que mais ninguém nunca ouviu novamente ali. Palavras de amor de crença palavras que só apenas crianças entenderiam. Crianças e anjos só, com suas almas bem puras, olhavam pra luz da lua na água do lago escuro e viam o colo turvo pra onde devem voltar.
A cada passo dos sete que levam à mãe da terra o anjo notava estrelas nas orbes de vidro inertes. Estrelas que lhe contavam histórias das mais antigas distantes e divididas em antes agora após. Imagens que se formavam imagens que se diziam histórias por si e sós. A cada orbe parava Alalaf com sua pena da sua asa arrancada pra escrever numa faixa de seda o que encontrava.
Entre a dor da ausência e o abraço da mãe água Alalaf conheceu a Grande História do Mundo.

postado por Leandro Durazzo 4:14 AM
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Quarta-feira, Janeiro 03, 2007

Ele tinha saído da Cidade com o resto dos homens de lá. Tinham marchado por dias e dias a f(r)io no inverno polar que fazia ali, no meio do planeta todo. Era uma Guerra Grande, Grande Guerra, conflito armado mundial, era o que diziam. Ele não acreditava. Não gostava mesmo da idéia de sair a pé dali - da sua casa - pra rumar sem rumo certo ao menos que ele soubesse. Mas ele era sério e patriota então só seguia com a mala nas costas o rifle no ombro e as botas no chão. Aquele batalhão foi tomado por tropas inimigas na saída da Cidade e nunca mais na vida ninguém soube o que ocorreu.
Mas esta não é uma história dele. É uma história da mulher que o amava e que foi abandonada pela força da Nação. A guerra iminente vinha logo logo à frente e clamava conclamava exigia seus recrutas e seus filhos sua gente todo o sangue para a luta. A história que se passa aqui - daqui pra frente - não é a do absurdo da guerra ou violência ou distúrbios sobre a terra. É a História da espera da angústia e da saudade.
A História da Esperança.
Não que traga algo novo presse tema já antigo. Não que nada não que faça não que importe o que eu digo. Esperança a bela jovem sorrira pro batalhão que há muitos alguns anos caminhara em direção dos limites da Cidade. Esperança tinha feito um pacote bem pequeno e delicado tinha nele colocado com amor seu coração. Não precisaria dele por um tempo por enquanto até a volta do amado. Colocara o pacote bem pequeno simples belo dentro da mala do homem que ali naquele inverno respondia ao grito louco de uma guerra lá distante. Dentro do pacote ao lado do coração ela colocara a carta que pedia, no seu fim, por uma resposta breve. A carta era encantadora era uma carta linda lida ela que seria bem no front de batalha. Naquela cartinha branca perfumada com carinho Esperança havia dito que seu homem deveria cuidar do seu coração como cuidava de si mesmo. Mas muito mais que isso a cartinha havia dito. Ela dizia do sonho do amor e da esperança - e da Esperança que sonhava o amor mesmo à distância. A carta tinha escrito no seu corpo alvo e
frágil todo todo o sentimento que a menina tinha dado vinha dando e daria ao homem que ela amava. O homem que na fronteira da boa velha Cidade morrera sem mesmo abrir a mala e o pacote.
Como em toda boa guerra houve ali o tal do espólio. A um inimigo jovem e mui belo coube o corpo e as malas do amado da menina Esperança. Além daquele pacote nada havia de notável, e o loiro jovem moço encontrou o coração.
Esperança, sentada na janela de sua casa - eternamente - olhava pro horizonte pros limites da Cidade e sorria contemplava e muito se encantava com a vida que podia ver todo dia ali passar. Ouviu muitas histórias fatos causos e lorotas por muito e muito tempo. Ninguém, sobre o batalhão, falava naquelas bandas. Três dias depois de ido o batalhão foi completamente esquecido na memória da Cidade. Menos pra Esperança, que entretanto não se importava em falar de seu bem-amado distante naquela Guerra da qual nenhuma notícia a mais havia chegado. Ela sentia seu coração colocado numa mochila às costas de um homem jovem envolto por uma guerra. Não sabia quem era o homem.
Ouviu mui notícias novas e muitas outras bem antigas. Ouviu por exemplo a lenda da cidade que se engolira num momento extremo de fome e de fervor. Ouviu falar de um homem que caminhava no Nada todo e criava com seus olhos o mar a areia e o sol. Ouviu ainda que vinha do céu uma letra uma pena e um guia um anjo caído poeta de deus. Ouviu falar da menina que embelezava a colina do centro do mundo. Menina que dançava nua envolvida por névoa e pela luz da lua. Seu coração continuava no canto de uma mala de guerra.
Volta e meia sentia uma explosão perto do coração que mandara pra longe. Sentia o zumbido de uma bala ou o grito de um soldado morrendo. Sabia que não seria seguro pro seu coração, não seria tranquilo nem nada de cômodo. Mas mandou seu coração pra longe longe pro seu amor se sentir aquecido.
Esperança continua sentada na janela. Enquanto a carta não chegar ela não vai de forma alguma nunca nunca deixar de olhar o horizonte. Esperança não é mais humana nem é mais só esperança. Esperança hoje é Angústia é Dor é Ausência Saudade e também Confiança. Esperança é Tempo.
Esperança é a guardiã eterna de todas as histórias do mundo. Pelo menos enquanto a carta não chegar.

postado por Leandro Durazzo 3:59 AM
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Sábado, Dezembro 30, 2006

- a História da paixão - cap. II
(leia cap. I para melhor compreensão)

Alalaf escrevia escrevia e cada vez que o seu sangue no papel branco caía uma nova uma história um novo conto surgia. Era rápido, afoito, Alalaf escrevia por paixão e pela dor que suas costas lhe imprimiam. Nunca mais as suas costas perderam aqueles cortes daquelasas arrancadas. Nunca mais as suas costas se livraram dos açoites de eras, eras atrás. Nunca mais. Mas seu rosto seu semblante e seus braços - suas penas - escreviam nas novenas e nas cartas que enviava ao deus que o derrubara. Escreviam e criavam de acordo com sualma escreviam e narravam contos lendas e canções.
Deus, calado, no alto, sorria. Deus sabia, afinal, que além daquele mal que a Queda o infligira, Alalaf já sabia que sua vida mudara.
Pra melhor.
A menina-Criação o olhara em seu tombo. Olhara e com assombro tinha ido em seu socorro. A menina que ajudara na Queda de Alalaf depois que o encontrou não pôde conter o choro. A menina o levantou, sorriu, dançou, a menina iluminou toda a noite de outono.
O anjo escrevia com o sangue de seus cortes escrevia escrevia e no seu escrito havia a risada de um Deus. Pelas letras que juntava pra formar suas palavras, pro encanto dessas almas que circulam por aí, Alalaf fez surgir o sorriso da menina. A menina ria a deus, a menina mais sorria do que a dor que o anjo via poderia lhe doer. O anjo olhou pras letras olhou pro sangue nas penas olhou pra deus pras novenas o anjo olhou sua senda e olhou sua menina.
E o anjo Alalaf bom e velho anjo poeta sorriu pra seu rosto mesmo e aceitou que sua Queda voasse com aquele vento que trazia pro seu corpo a flor e o contentamento.


(pra que ninguém esqueça que mataram aquela Árvore. pra que todos saibam que nunca matarão meus sonhos)

postado por Leandro Durazzo 2:41 AM
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Quinta-feira, Dezembro 21, 2006

Existia uma árvore. Uma árvore velha, que fez sombra pra primeira dança que dançou o mundo - eu lembro. Eu estava lá.
Existia uma árvore que deu frutos para os primeiros animais. Que deu lenha pros primeiros homens. Existia uma árvore que deu tudo a todos que dela precisavam.
Existia uma árvore que me acompanhou crescer. Que ficava logo ali, ao alcance do meu braço - braço que toca o vazio completo, e, perto, chora com meus olhos pelo nada que restou.
Ao alcance do meu braço esquerdo me acompanha minha morte. Ao alcance do direito, existia aquela árvore - que era parte da minha vida. Agora restou a morte, que não está mais tão longe quanto antes - ela toca o meu ombro, ansiosa pelo primeiro descuido ou
desistência.
Ela era frondosa, bela, verde, ela era tudo que pra mim representava a vida. Ela estava sempre ali quando meus olhos precisavam. Sempre. Ela era grande imponente e ligava pelo caule a funda terra e o largo céu. Ela era a meta de milagres e divindades, ela era a seiva que salvava a tempestade ou a calmaria de um dia na cidade.
Porque a cidade cresceu e invadiu todo o redor e derrubou levou por terra muitas das suas irmãs. Ah! terra linda bela verde virou cinza e de repente... quem sabe, de repente... de repente existia só aquela árvore, aquela primeira e bela árvore.
Aqui dentro da cidade ela ficou, e deu verde vida deu verdade à minha senda e à rotina. De todo dia. Aquela árvore existia.
Hoje resta um tronco. Alto, principal, o eixo da Terra rasgado e partido pelas mãos animais de homens de razão. Hoje resta um único caule alto e sem mais folhas, que espera solitário pelo dia de amanhã. Dia que certamente será o último de parte da minha vida. Da minha alma.
Hoje ainda vi muitos pássaros chorosos como eu voarem ao topo do tronco nu. Eles conversavam entre si, na língua que não me é dada a ouvir, e diziam da tristeza e da falta que farão aquelas folhas pros seus ninhos.
Amanhã os homens voltarão, com suas facas e facões, machados, serras e sentimentos terríveis contra a terra. Espero não olhar, mas sei que meus ouvidos jamais ignorarão o chamado derradeiro, o choro, a seiva escorrendo e, finalmente, o tronco, morto, e o vento passageiro compondo lamúrias e canções pela amante que irá embora.
Ah! como eu queria abraçá-la e ficar eternamente ao lado dela, criar raízes tão profundas quanto as que ela já criou - e que amanhã serão arrancadas, como o golpe de misericórdia dessa tal humanidade.
Olho agora pela janela. Embaçada pelas lágrimas que não param de surgir, vejo a árvore. A árvore mãe de toda vida, que agora, partida, parte pra nunca mais ser vista por meus olhos - nem os de ninguém.
Árvore querida, árvore de toda minha sorte, recupere-se da morte e percorra minha vida minhas veias e meu corpo.
Para sempre em mente, semente.

postado por Leandro Durazzo 1:15 AM
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Segunda-feira, Dezembro 11, 2006

- a História da paixão - cap. I

Um anjo bom e velho um anjo andarilho certa vez há muito tempo cometeu um grande erro. Talvez não tenha sido um erro - ele não acreditava que fosse, não se lhe parecia - mas mesmo não sendo um erro acabou por afetar todo aquele deslumbramento que no começo de tudo havia. O anjo bom velho anjo se apaixonou. Deixou seu peito ser tomado totalmente por paixão pela mulher que mais que tudo refletia a Criação. Era um brilho era luz ela era uma mulher que além de ser mulher era a doce harmonia do canto dos antigos dos deuses já esquecidos. Ele se apaixonou pelo som da existência daquela doce moça que de uma forma ou de outra existia em sua frente. Não existia para ele, entretanto.
Era inadmissível que um anjo assim tão velho - na verdade qualquer anjo - cometesse esse pecado de nutrir dentro da alma a paixão pela menina que na terra se espraiava dando luz e dando cor a toda aquela imensidão. Era inadmissível. O universo gritava e girava em sua volta e voltava a girar pro grito mais profundo e escuro do início daquilo tudo.
O universo tirou suas grandes brancas belas asas. Tirou suas asas dolorlentamente e com cor de sangue negro tingiu sua brancura. O anjo velho anjo, de nome Alalaf, caiu então pra terra caiu e nunca mais na vida até agora - e até o fim do mundo - voltou a alçar vôo nas tardes alaranjadas de pôr-do-sol de outono. O anjo tornou homem e chorou sua primeira e certamente não derradeira lágrima de dor.
O universo tirou suas asas e sua anjidade mas deixou por caridade suas penas e paixões. Alalaf velho anjo com as penas de suasas molhou a letra em sangue e escreveu naquele instante toda a tal sua jornada. Alalaf falaria com intensa poesia a paixão que o derrubara. De seu sangue e suas penas escrevia as linhas tênues de uma senda desbravada. Alalaf tornou homem e do fundo de sualma soa um sino silencioso de sabores e de sinas de surpresas e de cismas pelos olhos da menina que sem querer o derrubou
do céu
pra terra
por amor.

postado por Leandro Durazzo 3:43 AM
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Quarta-feira, Outubro 25, 2006

'escorregou, bateu fortemente o nariz, e toda dor sumiu.' não tinha sido de propósito ele não se autoflagelara ele nada tinha feito ele mesmo não queria se ferir. aconteceu. e por ter acontecido assim sem mais, levantando, olhando em volta, vendo a bicicleta retorcida junto à calçada, sorriu.
a Queda tinha lacerado a carne a pele e deixado no asfalto alguns pedaços dele mesmo. sim, não tinha problema, devolvia à Terra a matéria que dela havia tirado - e tirava sempre. nada mais justo. a mente entretanto acelerava a cadência a harmonia de tudo e dizia "ora ora ora era só o que faltava". a mente sabia o que fazia.
por isso ele seguiu. seguiu de volta, é certo, não chegou a terminar o percurso, não chegou aonde deveria. mas não devia mais. ele voltava sorrindo criando sentindo no peito na mente um estado estranho - e inexplicável - de compreensão e tranquilidade.
não precisava mesmo chegar aonde ia. tudo que ele tinha bastava pra Criar. e mais que criar, sua mente sua alma quieta no momento, sua alma tranquila, respirava a luz que vinha da lua crescente no manto azulzíssimo do céu.
quando o corpo sofre e a mente olha as coisas brilham. o sorriso ultrapassa as barreiras dos impedimentos e a alma ergue a carcaça machucada. como toda compreensão do acaso
cair permite ascender.

postado por Leandro Durazzo 1:34 AM
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Sábado, Outubro 14, 2006

Houve um tempo em que aquela cidade realmente existia. Durou muito, inclusive, uma penca de centenas de anos. Mas sua natureza não permitiu que se eternizasse. A cidade era faminta mas não se abria, e por isso não antropofazia do conhecimento exterior seu próprio conhecimento. Ela comia sim, ora, tinha fome, e comia muito cada vez mais e mais rápido.
A cidade comia suas próprias beiradas, suas bordas e divisas. Não devorava um grão sequer de terra nem uma lufada de ar do território vizinho. Nada. A cidade devorava a si mesma vorazmente e com velocidade cada vez mais vacilante. Cada mordida machucava aquela geografia de forma nunca antes conhecida - cidades não têm o costume de se comer, ao menos não a si mesmas. Mas ela comia.
Os habitantes visitantes viajantes todos os homens passantes nenhum deles notava. Não notavam. Suas vidas ou eram dali, daquela cidade devorante, ou não eram. Se fossem eles não percebiam nada estranho. Se não fossem, tampouco. Se fossem eles mesmos devoravam aquele asfalto e devoravam mesmo suas carnes e corações. Se não fossem, eles passavam sem sequer comer ou respirar, e rápido voltavam para seus locais natais.
Nunca ninguém conseguiu dizer o motivo verdadeiro daquele desespero esfomeado. Não disseram, mas não fez diferença. Um dia, esquecido, a cidade olhou pro que sobrara e piscou. A cúpula da igreja grande no centro de tudo aquilo - que agora era tudo - foi ficando sombreada, assombrada, com sombras a lhe taparem a luz do sol.
A grande boca da cidade se devorou até o fim, e prosseguiu comendo e mastigando o que encontrava pelos intestinos subterrâneos de toda a Terra.

postado por Leandro Durazzo 9:55 PM
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Sexta-feira, Outubro 13, 2006

aqui jazz us
(ou "terceira parte do tríptico)
(num décimo terceiro dia depois de três vinte e quatro horas a partir da terçafeira)
(com três bênçãos três presentes radiantes das três musas - e nove bacantes)

E diz certo alguém muito do importante e bom e sério e iluminado que o amor é mais que a negação que se imagina, mas a afirmação da ação do bem e da compaixão mesmo na direção daquele que não vale um tostão. A beleza da claridade obscura e profunda que toca no âmago amoroso do amor imensurável. A beleza também da clara manhã de amor e som e dia e tudo que res-pira alegria. Porque como sempre o caminho da penumbra encanta e deslumbra e alumia e contagia como a volta ao mundo em infinitos dias. Sempre o caminho, sempre o andar. Sempre a luz e sombra da face gloriosa de quem pode olhar.
E olhar assim é o segundo passo dos passos eternos do caminho a seguir. Porque é claro que não basta andar e apenas andar sem olhar e contemplar as miradas e miragens e paragens dos lugares pelos quais se vai passar. Claro que não. Claro que é preciso mais que tudo olhar pro caminho que se constrói em volta do ímpeto movimento de passo-aqui-passo-lá. Passos que passam mais e mais cada vez que olhamos para os próprios pés e para os pés das montanhas e paramos sentados em sombras aos pés de árvores centenárias que mesmo não tendo o dom de andar vagueiam assim suspensas pelo ar.
Olhamos e sentimos, claro, como sempre, e um instante compreende tudo aquilo que a falta do caminho faz vingar. Infeliz segurança de felicidade segura. Que nunca se sobreponha àquela humilde alegria de andar e andar sem se preocupar com nada além do caminhar. Não há melhor satisfação que pensar com os pés e sonhar com as mãos e deixar que o corpo obedeça ao coração. Por mais romântico que seja, e que seja, tanto melhor, é o jeito verdadeiro de pulsar a vida na batida da rotação do mundo imenso e fecundo. Certamente.
E muito além dos passos e abraços do amor além-do-espaço e da claridade beata e grata beleza radiante dos passantes está a pureza da clareza profunda e suprema. Além de todas as máscaras belas e aparentemente duradouras se esconde a beleza mutante das gotas de orvalho que ardem em chamas na grama de seus próprios corpos de barro. Clareza da mente da alma da gente que anda no mundo com pés fincados tão fundo que deixam vazar por suas cabeças a seiva da terra que brota de leve e leve como a pluma da ave que foge da neve.
E a mente é a alma com a cabeça bem feita daquele que sente o que não é lixo aos olhos do mundo clemente. Alma que sente, mente que sente, semente, semente da vida da alma da força da calma da rouca agonia de tocar o mais alto possível o topo do mundo, que vai além além sempre mesmo.
A desnecessária mania de prender e entender e fender tudo acaba por fazer o suco escorrer do sulco marcado na face do todo completo e amado. Sangue do mundo, sangue da alma maior de todo o universo que existe e outros além ¿ além é mesmo uma palavra que agrada. E mais que tudo isso junto, esse ardor por amar e esse amor por matar que sempre aparece onde quer que se vá, explode e preenche a clara beleza da sombra que expande expande e almeja cruzar o caminho ¿ caminho ¿ da luz e da essência.
Bela beleza da clara clareza do mundo profundo que encanta e canta. Caminho caminho que crepuscula como nós, sempre que cremos estar de mãos dadas e almas laçadas uns com os outros e vendo até onde vai nossa bela capacidade de deixar que vá. Indo como sempre vai, surtindo efeito de amar e clarear o claro amor supremo pela criação que talvez mesmo nem tenha sido criada ¿ mas que cria, como uma boa mãe que dá aos filhos o leite do seio quente pra nutrir a vida inerente a toda corrida. Caminhar nem sempre é contemplar devagar.

17/04/06

(créditos da imagem http://www.mcmastergallery.com/)

postado por Leandro Durazzo 12:39 AM
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Quinta-feira, Outubro 12, 2006

é preciso que o mar
o mar enxague passe toda a violência sem pedir licença sem qualquer sentença de momento de carinho. o mar avança sorri retorna e leva de volta ao seio a velhice e a esperança e leva o corpo todo ele repousa o mar faz repousar em si o que cansou de ficar sobre dois pés - às vezes quatro - a vida inteira.
vida vida a vida volta vira e vaza como o mar as águas rasas a praia doce tão salgada o mar gelado o mar gritante o mar. as águas brancas toda a espuma areia molha areia dura quando bate pisa a água quando mistura numa só única hora tantas coisas que o mundo desencava lá do fundo bem da alma.
alma do mundo grita grita alma norma calma grita tudo silencia e contempla. pára. e olha. Vê do chão nascer a folha vê a ave a árvore a bolha de sabão da pequena criancinha que ri e corre longe pula voa alto - crianças voam, não duvidem - criança bela como o chão a terra a alma toda da esperança infinita sempre sempre longa e mais um pouco.
apareça, nossa senhora.

postado por Leandro Durazzo 1:03 PM
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Quarta-feira, Outubro 11, 2006

combate à dor adoraria saber adoraria. doravante o que sobra quando sai toda doença toda dor toda urgência quando sai daqui pra fora? o que sobra o que fica o que resta quando a dor corre depressa sai voando voa gira grita sente chama sinta - sinta a chama queime doe - é bonita minha folhinha é escrita ela informa em formação seja do que for mas cada dia surpreende mais que outro o que for cada dia segue o outro pronde for um dos dias é saúde é mentalista outro dia depois é combate é contrador mas não conta nada outro dia dia de hoje como foi dia de ontem mas com tema diferente. todo dia é a mesma coisa, afinal, e ninguém nota - minha folhinha de jesus expande os raios belos raios pela toda a cozinha - a folhinha.
folha essa otimista de saúde e de prazer dia a dia toda vez que olho algo a me dizer. Folha cai folha voa folha desce lembra cummings

l(a

le
af
fa

ll

s)
one
l

iness (*)

muito mais que folha boa dia louco esse dia
dia de combate à dor
dia de anestesia

(*) poema de e. e. cummings considerado a perfeição de sua obra

postado por Leandro Durazzo 2:26 AM
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Terça-feira, Outubro 10, 2006

encanto é ver sorriso como o teu, e aquela conversa toda sem nada pra dizer que não desenho, e me sentir bem e sorrir também ora ora era isso... era depois ficar pensando "por que diabos tu deixou que ela fosse?" ou ficar triste de ir embora e dar o último abraço e ouvir e ver escrever que o encanto que surge num dia é lindo e tão forte quanto qualquer canto construído... e depois ficar sempre por muito tempo pensando onde ela está estará ou estaria e ficar às vezes - claro, não é sempre - querendo mais que tudo ver sorrir de novo.. não era nada, não é cobrança não é nem mesmo esperança o que era nem eu sei. Era de fato um desejo de ver de perto de ter um beijo do teu e no teu coração, que é lindo encanta sorri e só isso.... nada mais

não há retorno
só transtorno
obsessivo compulsivo
complicâncias vidiárias

postado por Leandro Durazzo 1:25 PM
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Virara a folhinha, na verdade arrancara aquele dia passado dia dontem que era dia outro anterior. Passara há pouco, é fato, passara curto e tinha sido bom, mas o dia de amanhã hoje parecia ainda mais. Promissor, ao menos, mesmo que não fosse.
Pegou sua mente começando a voar, mas ainda que a pegando deixou que fosse livre, e ela começou a sorrir no alto olhando para ele de forma a perguntar pra si mesma o que ele tanto queria saber. Ele não queria saber nada, mas sempre se perguntava, e aquela folhinha nova mostrava que era preciso saber ou pensar ou ao menos tentar entender o por quê de ser aquele dia o dia que era.
Pensava em loucura pensava. Na saúde mental que diziam existir - tinham todos seus próprios parâmetros pra definir o que era são ou não - e na qual ele definitivamente não se encaixava, mas se encaixava enganava passava por são e fazia de tudo que qualquer outro humano saudável faria. Mas dentro por dentro em simesmo sabia que era tudo muito mais amplo e grave e mesmo simples do que a saúde que tanto diziam existir.
Não existia. Nada existia nem a loucura sanidade alegria nada disso tudo nada vinha a ser o que diziam que seria. Abraçara a loucura há já tempos e era louco bem feliz assim até mesmo quando triste. De certa forma o que ninguém entendia era como podia ser assim daquele jeito louco inconstante rarefeito sem fronteiras parapeito sem ter nada de direito - erra tudo erado era era errado tudo torto tordo canto e migratório.
Era um anjo era santo era louco assassino de amantes não amava ele mesmo que ninguém podia amar. Ele pensava louco pensava em sanidade do que aquele dia dia 10 dia de outubro queria vir a dizer - e vinha mas não vinha nada, saúde mental não existia, ele sabia! Era a constante inconstância das águas da maré mansa ressaca brava era som da graça era luz da praça bênção na massa toda de saudáveis loucos sãos enganados por Pretórios por José e por João.
Não existia enfim aquele dia e a mente no alto do teto da cozinha rodopiava e sorria gritando pra ele - lá embaixo ainda - que ele sabia. A questão que ele fizera que ele faz e que ele fazia tinha a resposta mesmo antes de existir pergunta tinha tudo junto dele tinha verso e magia, loucura controlada de um feiticeiro que ele ainda não era mas quem sabe um dia - que não hoje - ele poderia vir a ser?
Era louco era um anjo tinha asas mesmo ainda que perdidas caídas num tempo atrás num tempo velho num tempo longe que foi que fica não volta mais feio tempo triste e tempo tento dizer aqui digo agora a mim diga tu a si diga mesmo esqueça não vá não volte não fique ou desça sorria mude enlouqueça e siga são siga sendo louco sigamos todos na imensidão.

postado por Leandro Durazzo 2:03 AM
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Domingo, Abril 16, 2006

aqui jazz
(ou "a segunda parte do tríptico")

E eles mesmos dançam não só ao som das palavras caladas mas ao som das batidas dos sons que atingem as orelhunhas e falanges auditivas. Dedos que dançam e ouvem e pulam vibrando e estalando um contra o outro, na velocidade maior que podem alcançar. Estalam e batem e dançam e surtam e perdem o ritmo quando o bendito Bud leva a batida mais longe do que as pobres mãos que os sustentam podem agüentar. E aí eles param e a cabeça - que até então era apenas parte acessória do balé dedal - começa a balançar sozinha de um lado pro outro com ouvidos atentos aos toques dos instrumentos distantes e ressonantes.
E sons, porque sons movimentam aquilo que nem mesmo as danças e coreografias e expressões corporais conseguem demonstrar. Uma companhia de balé não transmite as sensações que um conjunto de jazz transmite, mesmo que os dois estejam tomados pelo mesmo calor da inspiração. E aí o som entra e entra e balança e te move, e te joga... e os dedos que dançam nas teclas de letras acompanham os dedos das teclas de som e o sopro da imaginação escritora entra na cadência do sopro compriiiiiiiido do sax ou qualquer outra coisa que faça a batida do coração se modificar. Batidas de tambores e baterias e pandeiros e caixas de maçã argentina dizem ao corpo o que fazer e ele faz. Pula de um lado pro outro ou pula no mesmo lugar, mas sempre pulando mesmo que imóvel.
Tac tac tac tac - será que alguém ainda entende isso? Os dedos batem e tac tac tac tac a cabeça pensa no que será que as cabeças vão pensar quando lerem esse tac tac tac todo. E isso também não importa, contanto que os dedos permaneçam andando. Andando pra nunca pararem e olharem em busca de sentido imóvel e inerte e morto exato como aqueles sentidos que todos procuram quando se acomodam e olham em volta e não sabem mais sair da mansidão segura na qual entraram. Porque segurança é segura mas é chata, parada e tapada mesmo. Criatividade é rodar, flexibilizar, instabilizar. Ins-pirar e respirar quando tem tempo pra poder mergulhar mais fundo no buraco inseguro da criação.
E se não der pra respirar, que não respire, mas que pire e crie e sinta e não sente - porque sentar é o início do parar. -Andei, andei, andei e cansei, cansei, cansei, cansei e parei, parei, parei, parei e sentei, sentei, sentei, sentei e dormi, dormi, dormi, dormi e sonhei, sonhei, sonhei, sonhei que andei...- mas mesmo assim se anda. Bonito de se ver. Pare, sente, deite, durma, porque isso afinal é um bando de necessidades mesmo, mas nunca pare de andar, mesmo parado. Ande ande ande ande da forma que puder, pois parar é pretexto pra morrer.
E ninguém quer afinal morrer. E se um dia eu morrer e puder continuar a andar do lado de lá - nome bonito mesmo, que lá tem... além - eu ando, e vou andando além pra nunca mais voltar e nem pensar em parar novamente. Deixa o corpo caído comido e roído, mas continua andando até onde der.
Mudanças levam coisas nas quais seguramos pra não cair ¿ doce ilusão de ficar em pé - sem sabermos que caindo é que vamos em direção daquilo que mais nos faz falta. Muda mudança gritante e barulhenta que joga no chão as certezas isentas de movimento e pensamento e sentimento. Segurança burra que graças a deus toma um chute da mudança eterna e cíclica e retorna ao caos do movimento lento e bento da veloz validade universal do criamento - que é a força do ímpeto súbito da criação com o sentimento que pensa mais que qualquer pensamento.
E indo e indo sempre pra mais lá do que cá e além de qualquer castração barata e ingrata de cunho pessoal e mesquinho. Caminho.

postado por Leandro Durazzo 7:02 PM
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jazz
(ou "primeira parte do tríptico")

Eu tenho essa coisa de não conseguir conter os dedos em alguns momentos, e simplesmente dizer a eles: "Vão! Sejam livres pra fazer o que quiserem". E como bons obedientes que são - obedientes à minha permissão ou mesmo às suas próprias vontades indomáveis - eles correm e dançam, pulando alegres pelas teclas do que é hoje o portal de um novo mundo. Eles imprimem na tela com letras exatas aquilo que mãos trêmulas em tempos anteriores marcavam nos papéis. É. Eles são privilegiados de poder acessar rapidamente esse arsenal de proto-idéias - e armas que de uma forma ou de outra essas idéias acabam por se transformar. Mas o que mais movimenta não é o poder que pode vir a surgir daí, de todas essas idéias e palavras de potência e frases de efeito ou seja lá o que elas são. É de todo o movimento ininterrupto e rápido que percorre o teclado que surgem os anseios de dedos ávidos.
Ávidos de querer alcançar o próximo passo - passo de dedo - com o ardor de quem percorre estradas eternas atrás de um destino mutável. Mudando de acordo com o próximo movimento, com a próxima batida e com a próxima ins-piração os dedos flutuam e rugem com fome de letras e lutas e listras e lustres - palavras de uma forma ou de outra, que nem sempre trazem significados, mas sempre significam algo.
Justamente quando essas coisas loucas liberam condutas o texto surge disputando espaço em meio a outros pensamentos e tarefas e preocupações e distrações e sons e mãe e mãos. Porque nada é de uma forma única, porque tudo é de uma forma ligada a todas as outras, e assim as coisas saem e fluem, respirando um tanto de ar quando podem pra não naufragarem num turbilhão de tudo. E tudo, imundo e puro como tudo há de ser - e é - encharca as tentativas céleres de dedos secos e molhados pelo suor das palmas que eles mesmos possuem sobre si. Palmas próprias porque palmas alheias são coisas que hoje se dão ou por total apreço e admiração ou por extrema indiferença. Ninguém se importa.
Mas mesmo quem se importa em notar que ninguém se importa acaba por não se importar também. E não saímos de onde deveríamos sair, que é daquele local profundo e sem escadas do seio da alma humana onde nenhuma corda por maior que seja pode resgatar a piração interior. Se existissem escadas direto até o fundo do poço, fazendo a ligação permanente entre o que não sai e o que não entra, teríamos uma explosão de radiância digna do mais profundo mundo espetacular e luminoso. Não por causa da luminosidade do interior escondido, nem mesmo pela ofuscação das luzes indiscretas que vêm de fora e rasgam as sombras da noite particular. A escuridão é mesmo o local mais misterioso, mas só serve pra algo se for unida num momento específico de qualquer dia cronológico.
Crepuscular é o momento em que as luzes e sombras se mesclam e radiam irradiando fogos de artifício no céu escuro da alma eterna. Assim eu crepusculo, tu crepusculas, ele crepuscula, nós crepusculamos e até mesmo meus dedos - santos lépidos dedos - crepusculam atingindo o zênite da aurora invertida. É na beleza da penumbra que se esconde e que se mostra a beleza da mistura, sem anulação alguma.
E existem pessoas atrevidas que dizem: -O que não é ciência não é exato. O que não é exato não existe ou, se persiste em existir, não faz diferença para as mentes racionais. Há!há! eles esquecem da poesia, e não só da poesia do soneto ABAB ABAB CDCD ou o que o valha, mas da poesia que permeia as sombras e os recantos tímidos e esquecidos da mais profícua vida. E assim a vida e as sombras e as luzes do amanhecer se mesclam e entornam a pretensa racionalidade exata abstrata e chata no mais longínquo cu da mata.

postado por Leandro Durazzo 4:23 AM
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Segunda-feira, Dezembro 05, 2005

Tudo que gira é de fato engraçado, e não há nada mais assustador do que aquilo que é engraçado e autônomo. Dizem que o terror é a sensação mais crítica pela qual o homem pode passar, e ainda que o desconhecido é o mais ameaçador; mas ninguém fala sobre a comédia mais bruta e nem sobre a imprevisibilidade daquilo que é conhecido.
Há algo mais assustador?

O ciclo das coisas que supomos conhecer alcança o clímax sempre que parece sorrir para nossas faces surpresas; e aí acaba. Não que acabe, pois como é um ciclo ele ontologicamente recomeça, e como recomeça as coisas nunca são as mesmas. O engraçado fica aí; o que recomeça gira igual ao que pensávamos conhecer, e por ter re-começado é diferente do que já nos assustara antes. O susto que o re-começado causa é tão grande quanto a maior metáfora que eu poderia colocar agora, se eu fosse bom em metáforas.

postado por Leandro Durazzo 3:20 AM
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Sexta-feira, Julho 15, 2005

Eu não falo mais do futuro
e juro que não digo nada.
Não grito, não penso, não urro
destino nem karma.
O tempo é o contrário da espera
por mais que pareça o inverso;
a espera é estar situado
num ponto sem nexo.
A vida (vida!) - a Vida -
há de existir sem protesto
de querer saber se à frente
está o contente ou o mau manifesto.
Porque a vida é vivida igualmente
ao processo do tempo que existe,
por mais que o tempo que passa, inclemente,
conduza à morte e ao escuro triste.
Viver é abraçar o tempo
como a um irmão que está sempre presente,
ainda que traga à família a morte latente
que espera ansiosa no futuro da trilha.
O que então, me importa no tempo
é o processo que ele apresenta,
e a morte contida em seu bojo
me mostra, sorrindo,
que a vida é uma benção.

E não me venham com mais idiotices.

postado por Leandro Durazzo 4:04 AM
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Terça-feira, Julho 12, 2005



"Certa vez disse Véia Tonha: -Doido, só cresce quem sonha! (...) Vamos logo, essa é a hora, eu tô sofrendo com a demora e não vim aqui pra brincar." (Raimundos)

Não que este texto venha falar de sonhos, mas esse início se tornou ideal por tocar em outro tema. E, pensando melhor, este texto fala justamente do contrário dos sonhos; ele fala de algo que é essencialmente parte dos pesadelos.
Ele fala do Tempo.
E com o Tempo, a proximidade da Morte, porque:
- o passar do tempo conduz os seres ao fim inexorável; à extinção, ao menos numa esfera imediata;
- o passar do tempo desgasta o corpo, apaga as lembranças e desespera o homem, devido às perdas de ciência sobre o passado e sobre o futuro - que ainda não veio;
- o Tempo estrangula a noção (e a crença) de que podemos nos valer das vastas possibilidades da existência para usufruir da mais sortida variedade de experiências;
- o Tempo anula a vida;
- o Tempo - retomando o primeiro item - conduz à Morte.
Entretanto, "os teóricos do Imaginário são os portadores da palavra do Tempo e da Morte", e minha entrada nesse paradigma me força a refletir acerca dessas questões.
A angústia, a náusea, o medo, as incertezas, todos os ideais existencialistas (mais relacionados, aqui, à idéia de existência do que à escola filosófica) são causados pela noção do transcorrer do Tempo, e paradoxalmente são sanados pelo desenrolar efetivo de sua essência. Assim, as angústias causadas pela noção da existência do Tempo desaparecem quando seu causador é absorvido pela vivência.
É interessante notar o raciocínio que a consciência do Tempo permite desenvolver. Quando se compreende a inevitabilidade de seu transcorrer, e a fluidez pela qual isso se faz, a aceitação do fluxo temporal objetiva experimentar a vivência imediata de uma forma absolutamente mais frutífera, além de desconsiderar as implicações que as ocorrências futuras possam vir a apresentar. "Quando o Futuro chegar, já será Presente".
Cito Fernando Pessoa, através de uma citação não literal de Rubem Alves (trabalho não-acadêmico prescinde de fontes): "Gozo a paz daqueles que já perderam as esperanças". Perder a esperança, aqui, pode (e deve!) ser entendido enquanto um real desprendimento da angústia temporal que a Humanidade experimenta naturalmente. É atingir um estado de imperturbabilidade dos ponteiros, é atingir um Nirvana cronológico. Dessa forma, a experimentação da vida é direcionada completa e profundamente ao momento atual, desconsiderando, como já dito, quaisquer eventuais possibilidades do futuro.

Retomando o ponto inicial, que dizia respeito à angústia do saber que o Tempo traz a Morte, lanço mão de um insight que tive há um tempo atrás. Não é novidade, não vou ser aclamado pelos intelectuais por causa disso, mesmo porque Heidegger já o foi, acredito.
O período que se estende do nascimento até o fim da vida é a Morte "aos poucos". O processo de desenrolar do Tempo é igual ao conceito de Morte, e, portanto, sem a Morte não haveria vivência. Viver é processar a Morte.

E a Morte nunca me pareceu tão viva.

"Eu vi a cara da morte e ela estava viva!" (Cazuza)

PS.: A Morte, irmã mais velha do Sandman, segunda mais velha dos Perpétuos, é a mais humana, alegre e "viva" de toda a família. Cazuza e Neil Gaiman criaram há tanto tempo o que pra mim hoje é novidade.

postado por Leandro Durazzo 4:56 AM
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Terça-feira, Abril 26, 2005

RPG é coisa séria. Como esse texto foi modificado na publicação inaugural do Zine On Line da Torre, publico o texto escrito exclusivamente para tal ocasião apenas dentro do meu universo particular, agora.


"O narrador é aquele que faz (...) conhecer a trama de eventos, sejam eles fatos do real ou frutos do imaginário". (SILVA, 2003)

A experiência da narrativa e a construção do saber coletivo

Desde o início da relação social o homem tem desenvolvido ritos, quer tenham sido para compreender uns aos outros, quer para amenizar o impacto que o desconhecimento da realidade causa. A narrativa oral, nesse contexto, figura entre os ritos responsáveis pelo entendimento do meio e pela aproximação dos homens entre si. A partir da arte de narrar, rito que reúne indivíduos com experiências e vidas em comum, o conhecimento construído coletivamente permite ao homem compreender o desenrolar da realidade, analisar os acontecimentos cotidianos e vislumbrar sensações e experiências que concretamente ele não tenha experimentado.
O ato de narrar é constituído de uma aproximação coletiva de interesses em comum, constituindo um acontecimento importante e ativo para todos os participantes. O narrador, figura fundamental e pedra-chave no rito da narrativa, caracteriza-se como portador de uma experiência sábia, de um acúmulo de experiências sensíveis e extra-sensíveis que permitem-no dar andamento ao processo ritual da narrativa. Contrapondo-se ao narrador estão os indivíduos que contribuem para o desenrolar da narrativa, indivíduos que questionam, sugerem, interrompem e definem o curso da narrativa de acordo com suas colocações ao longo dela. É nesse panorama que a narrativa se nos mostra importante socialmente: ela permite a inter-relação de expectativas e influências, ampliando a capacidade de interpretação da realidade e naturalização do desconhecido. A partir de outro ponto, quando a narrativa se coloca como apropriação de experiências distantes e alheias, a interconexão com a premissa narrativa, a saber, o contato oral com o indivíduo experimentado em fatos outros, torna-se fundamental para a apropriação do conhecimento deste último.
O narrador, portanto, é constantemente interpelado pelos ouvintes da narrativa, e dessa forma dá-se o processo de construção do saber coletivo. Com tal papel em mãos o narrador acaba por tornar-se um conhecedor da problemática humana e de suas particularidades, de tal modo que se transforma em um receptáculo de sabedoria. Sabedoria essa que, tecida na essência da experiência vivida, leva Walter Benjamin a professar que "O narrador figura entre os mestres e os sábios. Ele sabe dar conselhos: não para alguns casos, como o provérbio, mas para muitos casos, como o sábio". (BENJAMIN, 1936)

A morte da narrativa

Com o surgimento do capitalismo constatamos a derrocada da narrativa. Devido à compartimentalização do saber-fazer que o processo de produção capitalista exige, a posse da totalidade do conhecimento começa a ser perdida. Devido à perda da lógica do tempo existente até o fim do processo de produção artesanal, que se constituía de ritmos lentos, em detrimento da mecânica acelerada e industrializada da produção capitalista, o homem não pode mais pensar o conhecimento como um todo indivisível, moldável de acordo com suas necessidades e possuído por suas próprias mãos. Nesse ponto citamos Italo Calvino: "a dimensão do tempo foi estilhaçada, não conseguimos viver nem pensar senão em fragmentos de tempo que se afastam" (CALVINO, 1999). A mecânica de alienação, na qual o homem não mais se reconhece como portador do conhecimento da produção, visto que exerce um papel de reprodutor de apenas parte do processo produtivo, serve para ilustrar a perda do domínio da arte de narrar.
As condições favoráveis para a narrativa, antes existentes, portanto, são destruídas com o advento da lógica capitalista. O advento do romance, intrinsecamente vinculado a um livro, delimitado pelo estritamente escrito e portador de uma história de antemão formulada pode ser considerado o golpe de misericórdia na arte de narrar. Com o romance, em especial o livro, o indivíduo não tem mais o canal de aproximação com o coletivo, não pode mais, portanto, interagir com o mundo das experiências desconhecidas e trazê-las para si. O romance é uma ferramenta pela qual o capitalismo impõe ao indivíduo a solidão na busca pelo "sentido da vida". Sozinho, isolado, consumindo padrões estabelecidos, o indivíduo busca nas fronteiras delimitadas do romance um sentido para sua vida e para o mundo. O romance, assim, restringe a interação dinâmica e ritualística que a narrativa coletiva e oral permitia, fazendo com que a "moral da história", presente na narrativa, transforme-se em um padrão de "sentido da vida" pré-fabricado.
À compartimentalização do conhecimento, das técnicas de produção, da posse dos meios produtivos e da relação rito-pessoal segue-se, portanto, a morte da narrativa enquanto ritual coletivo de construção da percepção da realidade.

Fênix renascida: a ascensão do RPG e a retomada da narrativa

A década de 70 viu surgir o primeiro RPG da história. Não por acaso tal nascimento de uma nova forma de narrativa foi concomitante com a expansão do sistema informacional global, permitindo a troca de informações referentes a diversas áreas por todo o mundo. Ao capitalismo, já bem consolidado em inúmeras frentes, veio se juntar uma não tão nova forma de relação social: a narrativa.
A narrativa através do RPG possui todos os elementos bases para a transmissão coletiva da experiência. Através do RPG os indivíduos se reencontram enquanto homens com interesses, símbolos e referências em comum, passando a realizar um ritual pré-capitalista de extrema importância para o desenvolvimento da sociabilidade e da cultura. Isso "nos permite levantar a hipótese de que o RPG pode proporcionar à nossa sociedade capitalista um reencontro com a arte de narrar que Benjamin lamentavelmente via morrer" (ROCHA, 2004).
O RPG, além de possível ferramenta de apoio à leitura (PAVÃO, 1996), desenvolvimento intelectual e aprendizagem, mostra-se como um instrumento de sociabilidade, exercício oral e imaginação, objetivados no conceito de narrativa. Em contraposição à tendência moderna de restrição da história, como o romance nos denota, o RPG abre a possibilidade de reflexão acerca de todo e qualquer caminho ou acontecimento que tenha ocorrido durante a narrativa, bem como a inserção de nossas próprias influências no contexto da história narrada.
A narrativa, ritual coletivo de apropriação de experiências, encontra-se aninhada na proposta do RPG; quebra a pressa capitalista que inunda a contemporaneidade, permitindo que o tédio criador, antigo estopim da narrativa, volte a existir. E por estar aninhada no conceito de RPG, a narrativa se enquadra na máxima benjaminiana: "O tédio é o pássaro de sonho que choca os ovos da experiência. O menor sussurro nas folhagens o assusta" (BENJAMIN, 1936). E os imersos na narrativa sabem muito bem andar pé-antepé para que o ninho onírico-experiencial sobreviva e veja os rachar dos ovos.

Bibliografia:

BENJAMIN, W. O Narrador. In BENJAMIN, W. Obras Escolhidas I: Magia e técnica, arte e política. 3ª edição. São Paulo, Editora Brasiliense, 1987.
CALVINO, I. Se um viajante numa noite de inverno. São Paulo, Companhia da Letras, 1999.
MARX, K. Coleção os Pensadores. São Paulo, Editora Nova Cultural, 1999.
PAVÃO, A. A aventura da leitura e da escrita entre os mestres de Roleplaying Game (RPG). 2ª edição. São Paulo, Editora Devir, 1996.
ROCHA, M. S. Walter Benjamin e o Role Playing Game. 2004. Disponível em:
SILVA, G. A fraude e as máscaras in MARCHEZAN, L. G. e TELAROLLI, S. Faces do narrador. Araraquara, Laboratório Editorial da FCL, 2003.

postado por Leandro Durazzo 2:11 AM
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Sexta-feira, Abril 22, 2005

Olhar para um gato laranja com bolinhas pretas no momento em que eu deveria estar lendo ou fazendo algo útil parece estranho. Um gatinho bidimensional, sorridente e que serve de porta-copos, colocado em cima da mesa do computador pela minha irmã, a saber, a dona do gato (ou do porta-copos). Um gato evoca imagens muito mais primordiais e simbólicas, cheias de significados e passado do que um pedaço de plástico com um copo em cima.
E o olhar do gato, vidrado, como pra atravessar o fundo dos copos que se colocam sobre ele, fita meu rosto agora, enquanto nenhum copo é colocado em cima daquilo que existe com a finalidade de servir pra isso. As vezes chego a imaginar que é sarcástico ao me observar, por vezes imagino o felino circundando minhas pernas com a expressão alegre que os gatos de estimação possuem. Remonto ao olhar de Bastet que protegia os lares egípcios, com sua deidade materna de filha de Osíris, sendo ela mesma um dos olhos de Rá, divindade da vingança contra os inimigos do Egito.
Penso e olho pro gato prostrado à minha frente. O "olho de Rá" subjugado me traz a sensação primeva de que seu olhar sarcástico em pouco desencadeará a fúria da maldição, ainda mais depois que eu lembro (nesse momento) que gatos são animais traiçoeiros. Desvio meu olhar do gato e observo a tela (essa mesma que eu uso pra escrever e você, por sua vez, pra ler), me espantando logo em seguida com o que está sobre ela. Um leão. Um leão, de pelúcia, tudo bem, mas um leão. Um felino como aquele gato bidimensional em sua forma mais selvagem e perigosa.
Esqueço gatos. Esqueço felinos e bichanos. Esqueço os medos ancestrais, as reverências antepassadas e a temência deificante à esse ser banalizado e domesticado. Esqueço todas as imagens que tais visões me evocam e focalizo a tela, novamente a tela, esperando esquecer os significados de minhas digressões.
Esqueço, enfim, tudo o que as últimas visões me fizeram (re)lembrar e, como num passe de mágica, esqueço a mim mesmo.
Fica apenas a questão: o que mesmo eu deveria saber; e sobre o quê?

postado por Leandro Durazzo 9:15 PM
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Quinta-feira, Abril 21, 2005

O metrô é um transporte rápido, característica que o transforma, também, em um signo da modernidade. O passar veloz do trem por entre a terra, rasgando o mundo com sua conectividade extensa pode ser visto como uma alegoria do mundo pós-moderno, que apresenta uma gama imensa de fluxos de informação e trocas de caracteres por toda sua biosfera (e além). Um símbolo da expansão do mundo pelo mundo, ou mais especificamente, apenas um símbolo de uma era. Essas questões (signo, alegoria, símbolo) se me apresentam pois travam relação direta com o foco da reflexão.
Estar no metrô desde a estação do Tietê até a estação terminal do Jabaquara toma um enorme tempo de qualquer vida criada na correria do dia-a-dia pós-moderno. Estar no metrô, portanto, ao menos para quem deseja transformar o desperdício de tempo em acúmulo de qualquer natureza, se mostra como uma tarefa com possibilidades claras: ler. A leitura é a companheira solitária do indivíduo apressado. Lia [i]A imaginação simbólica[/i], de Gilbert Durand, formulador da Arquetipologia Geral do Imaginário (o que esclarece a reflexão sobre o simbolismo do metrô). Lia a imaginação simbólica e me descolava do mundo corrido e atribulado da densidade contemporânea. Eu me despia da vivência atarefada e célere (mas nem sempre válida) apoiado em um instrumento de meditação e interiorização. Éramos o livro e eu, apenas o livro e eu que virtualmente estávamos alheios a todo o concreto que passava rápido do lado de fora do vagão; a todas as pessoas que discutiam com pressa os últimos acontecimentos de suas vidas agitadas de tão monótonas, cativantes de tão simplistas. O livro e eu que, apesar de todo o esforço do elo que nos ligava, nos separamos por um momento.
Era meu instante de voltar os sentidos para o mundo concreto e retornar, ainda que brevemente, à realidade global do fenômeno imediato. Enquanto meus olhos faziam a varredura nos limites do campo de alcance meu olhar se deteve nos de uma menina. Uma menina, no sentido genérico do termo, de não mais de 15 anos, vestida de preto e com um olhar calmo e particular (longe da frivolidade impessoal que o mundo nos exige em sua maior parte). A menina parou os olhos nos meus ao mesmo tempo em que eu fazia a mesma coisa, e, de longe, ficamos nos olhando por um instante que pareceu durar muito tempo. Minha mente esqueceu o mundo, da mesma forma que o livro fizera, mas também esqueceu a menina. Os olhos dela que me observavam serviam apenas como locus de conexão com o além-mundo, esfera de existência do pensamento que transcende a necessidade material de existência.
Extrapolei os limites da pressa e da concretude corpórea pós-moderna durante aqueles instantes. Esqueci inclusive da existência daquele livro arquetipológico repousado em meu colo. Na conexão com o olhar de um ser genérico (muito mais na acepção de uma menina sem identidade imediata do que no conceito marxiano) me conectei com meu próprio olhar do mundo. Me elevei ao estágio de ausentabilidade primordial, inerente ao ser em sua qualidade de ser.
A concretude da realidade, entretanto, me fez pensar no que fazer após os longos poucos instantes de conexão. Ensaiei uma pergunta gestual para quebrar o que me parecia, já imerso novamente na pressa e objetividade, uma situação constrangedora. Inconscientemente, entretanto, sorrimos ao mesmo tempo, ao passo em que, depois, cada qual voltou a seus afazeres anteriores. A menina voltava a mirar pela janela enquanto Gilbert Durand clamava pela continuação de seu pensamento.
E o mundo se fez mundo, novamente.

postado por Leandro Durazzo 2:25 AM
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Sexta-feira, Dezembro 03, 2004

Há algum tempo atrás tive uma aula. Não que eu não tenha aula sempre, mas foi uma aula durante a qual uma "crônica" veio à mente. Ao menos de forma virtual, a "crônica" permaneceu na minha cabeça até agora, quando passo para o blog todo o ocorrido.

Foi uma aula de Sociologia. Sociologia é uma matéria na qual a reflexão rápida e abstrata é muito valorizada, e eu estava abstraindo. O tema era Hegel. Hegel e toda sua filosofia, mas principalmente, naquele dia, a questão do conhecimento. Epistemologia hegeliana.
O processo de conhecimento estabelecido por ele consiste, basicamente, da análise apriorística de uma coisa (sendo chamada, aqui, de coisa, por falta de terminologia acadêmica). Essa análise a priori é a opinião, a idéia que o ser formula sobre a coisa sem que se tenha permitido conhecê-la. Essa opinião é um pré-conceito.
Ao travar contato com a coisa, estabelece-se a experiência, a constatação empírica acerca das qualidades e características dela. Logo após esse processo, um conceito sobre a coisa é estabelecido. Um conceito que, após passar pela experiência, distancia-se em muito daquela opinião pré-conceituosa.

Um certo alguém à quem eu atribuo um valor muito inferior e depreciativo, que estuda na mesma turma que eu, levantou a mão durante a exposição da professora. Pensei instantaneamente "ai, lá vem mais uma daquelas questões idiotas de sempre".
Eu me surpreendi. Surpreendi-me pelo fato dessa pessoa ter me surpreendido na questão exposta. Foi algo inteligente, algo realmente conectado ao raciocínio lógico da aula.
Fiquei com vergonha. Solitariamente me repreendi por formar um conceito tão errado sobre ela, por ser preconceituoso em relação ao seu modo de pensar. Vi, em mim, a antítese da teoria ideal de Hegel, que preza pela experiência na formulação de um conceito.

E fiquei com vergonha por um bom tempo. Esse mesmo ser, entretanto, enunciou outro questionamento, um tempo depois. Sorri e aguardei pra constatar que meu preconceito realmente iria ser quebrado. Aguardei a pergunta, com uma ansiedade de final de campeonato ou pré-maternidade. Ouvi a pergunta.
Era tão estúpida quanto todas as outras, com exceção daquela exceção ocorrida no mesmo dia.
É! Hegel estava errado ao desconsiderar a importância do preconceito.
As vezes ninguém escapa a ele.

postado por Leandro Durazzo 12:19 AM
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Quinta-feira, Dezembro 02, 2004

Comecei esse blog falando de sonhos, falando sobre as promessas inatas à 2004. Logo após falei sobre escuridão, falei sobre "amor" e falei sobre medo.
Falei sobre uma nova vida que se mostrava no horizonte e, passado um tempo, falei da insubstancialidade que essa nova vida assumia.
Falei sobre medo de não entender qual era meu papel, e sobre a falta de entendimento acerca dos meus sentimentos (sentimentos vagos, confusos e perdido num mar de novidade assustadoras).
Falei, inclusive, sobre torpor e inanição que me envolviam e durante os quais eu pensava melhor.

Agora 2004 vem acabando. 2004 que prometia tanto, e que não deixou de cumprir as previsões. Falei sobre o ano que mudaria toda minha vida; transcrevendo de meu primeiro post "É nesse ano que eu quero que as coisas mais maravilhosas comecem a acontecer na minha vida..."
E aconteceu... ELA surgiu. ELA surgiu de uma forma inesperada e surpreendente, inédita. Não vem ao caso descrever o que e como aconteceu; esse hipertexto não trata de trivialidades da minha vida, trata apenas da minha vida trivial.

Acontece que, com ELA, surgiu toda a luz e a força que eu já esperava no início do ano. ELA me salvou da Escuridão, embora eu sempre gostasse de voltar pra lá.
Atualmente sou capaz de refletir ao sol ou na chuva, em qualquer situação. Hoje em dia sou mais forte e feliz.

Em meu último post falei sobre não achar meu lugar no mundo. Sobre não ter mais chão. Falei sobre ter perdido minha vida anterior.
Menti... ou errei, não sei ao certo e nem interessa. A questão é que minha vida anterior é mais atual e presente, mais forte e importante do que eu supunha. E o chão voltou, assim que minha mulher chegou.

Meu lugar no mundo é ao lado dela, e minha importância nele ainda vai ser formada. Por enquanto tudo vem sendo bom o suficiente pra que eu imagine o 2005 como melhor.

Obs.: Meu retorno ao nefasto mundo dos blogs é devido à sabe-se lá qual influência do Owen. Qualquer reclamação deve ser enviada à ele.

postado por Leandro Durazzo 3:08 PM
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Quinta-feira, Abril 01, 2004

As vezes um coração parado consegue retornar à atividade. Como isso acontece? Não sei, mas algo semelhante se passa comigo.
Fui embora. Pra longe, de súbito, com lágrimas nos olhos e um peso no coração. Com uma mala na mão e com o medo na mente.
Mas agora já cheguei, o que faz a movimentação da surpresa perder-se em meio ao caos de novidades e compromissos, responsabilidades e possibilidades que chegam aos meus sentidos.
O blog voltou, assim como cessou o torpor em que eu (e ele) me encontrava pra tudo dar lugar a uma nova realidade. Uma realidade paralela.
Uma realidade mais do que paralela, talvez, visto que a antiga realidade parece cada vez mais esquecida para mim. Não sinto mais minha antiga realidade como o lugar e as condições em que sempre vivi e aos quais devo tudo que eu conhecia. Perdi a intimidade com minha vida anterior. Renasci, com o mesmo medo de quem nasce uma vez, e com as mesmas possibilidades de quem acaba de dar o primeiro choro.
Minha vida antiga não é mais minha. Pertence aos álbuns de fotos, às mensagens escritas em papéis perdidos, às memórias defasadas sobre acontecimentos importantes. Ex-importantes.
Tudo é novo, inclusive meu coração e o sentimento que ele carrega consigo. Não posso mais dizer que tudo que eu vivi e gostei continua fazendo sentido pra mim.
Poucas coisas continuam como antes, e essas são tão poucas que se tornam insignificantes. O que eu sinto agora é que meu lugar no mundo não está mais firmado, que minha importância e atuação não mais estão estabelecidas. Sou etéreo em minhas amplas possibilidades.
E quando essa fluidez acabar e o materialismo da realidade se fizer mais forte, saberei qual será meu novo universo.
A priori tenho o medo e a escuridão como aliados, e essa é uma das poucas coisas que nunca mudam.

postado por Leandro Durazzo 5:32 PM
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Quinta-feira, Janeiro 08, 2004

Me sinto forçado a escrever. Embora mal, meus dedos correm pelo teclado procurando me mostrar algo que minha mente evita saber.
Acho que meu coração se amotinou às minhas mãos pra que eu veja algo que insisto em não entender. Por que tenho medo? Por que ela me parece tão grande e imponente? Por que eu me sinto tão fraco ao contemplá-la?

Vou ao banheiro e lavo as mãos; olho pra sala e vejo um pinheiro quase morto que serviu de árvore de Natal esse ano... entro no quarto e ouço As vitrines, do Chico Buarque, sendo cantada na TV por quatro cantoras que não consigo perceber quem são... meus pensamentos estão confusos, meu coração está confuso; as nuvens estão confusas em torno de uma lua cheia de uma luminosidade confusa. O mundo se confunde diante minha confusa tentativa de desfazer essa confusão.

É a primeira vez que posso dizer com uma certeza divina que amo algo. Não que eu não ame minha família, e certas coisas que costumo fazer. Dessa vez eu amo uma mistura de algo e alguém, amo o que eu vi e as coisas que pude deduzir através delas. O que corrói minha certeza é não saber se amo quem é responsável por tais amores meus.

O problema dessa vez é o medo que sinto, e dessa vez o medo não me liberta. E nem a Escuridão pode me ajudar.

postado por Leandro Durazzo 1:16 AM
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Sábado, Janeiro 03, 2004

Relatos marcados em sobras de Escuridão.
Hoje acordei pra explicar o nome do Blog.
Diz a Carla que é um lugar de tristeza. Naturalmente eu penso de outra forma.
Escuridão é um estado no qual as idéias fluem com maior facilidade, no qual os pensamentos podem se agrupar da melhor forma e que a capacidade de resolução de problemas adquire mais êxito. Problemas tais que, em boa parte das vezes, levaram ao estado de Escuridão.
Essas características são possíveis graças ao aparente estado de letargia que a Escuridão promove ao corpo, permitindo que toda a força em potencial seja direcionada para a elaboração do raciocínio. As idéias mais brilhantes são formuladas quando a capacidade do corpo está na mente, quando a utilização de qualquer esforço está centrada no pensamento.
Ao sair de tal estado a força motriz do corpo, latente durante a Escuridão, coloca em prática as resoluções obtidas pela mente durante sua reflexão, entretanto ainda ligada ao estado anterior.
É daí que vêm as sobras da Escuridão, nas quais os relatos desenvolvidos são grafados.

Não considero a Escuridão como um lugar (ou um estado) de dor e sofrimento, nem mesmo de tristeza e amargura, embora muitas vezes as motivações que levaram a ela possam ser de tais naturezas.

Ps.: Eu fui obrigado a escrever isso duas vezes, já que o Blogger fez o favor de dar erro. E também escrevi isso (por duas vezes) assistindo "A Lagoa Azul"

postado por Leandro Durazzo 5:21 PM
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Sexta-feira, Janeiro 02, 2004

"Esse ano começou estranho..." (Carla)
Embora seja apenas por ser um ano diferente, por ser esse ano o que mais vai mudar na minha vida.
Tudo que é desconhecido dá medo, e o medo nos leva às situações estranhas e aos sentimentos confusos... "A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido." (H.P. Lovecraft)
Se um dos maiores escritores da literatura mundial é capaz de assumir isso, e usá-lo magistralmente em seus escritos, um humilde mortal como eu certamente deve entender que o medo e a estranheza do desconhecido pressupõe acontecimentos marcantes e realizações jamais imaginadas. Ainda que amedrontadoras...

Sinceramente eu gosto do medo... ele motiva a ir em frente, motiva a descortinar coisas que de outra forma não descobriríamos...
O medo influencia a lutar e a encarar problemas maiores do que nossa capacidade, elevando a altivez dos atos, ainda que ao final os problemas vençam nossos esforços. Qualquer trabalho realizado com o intento de atingir um objetivo é válido e torna o ser humano mais forte e confiante em suas capacidades.
Mesmo que suas capacidades sejam resumidas e não permitam que a grandeza flua...
O medo liberta.

postado por Leandro Durazzo 5:27 PM
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Pois bem... retornei pra este mundo nefasto dos blogs e textos virtuais.
Não que seja algo ruim, afinal acredito que seja melhor postar comentários e reflexões mais longas aqui do que no meu Fotolog (mesmo que ninguém as leia)
Pra começar vou deixar marcadas minhas impressões sobre o ano que começa nesse dia (de ontem, na verdade) e que me deixa receoso. Afinal de contas vou encarar sozinho o mundo a partir daqui, e isso é algo que assusta mais do que alivia....
Parece que é um dos poucos anos onde a intelectualidade mundial vai estar voltada realmente pra resolução de problemas sociais que afetam a todos... parece que esse é o ano em que a pesquisa e a descoberta de novos métodos de prevenção a doenças e curas de males verdadeiramente cruéis vão ser iniciadas.
Talvez esse seja o ano no qual o sistema imperialista e a absoluta dominação subjetiva e cultural que os EUA impõe ao mundo começará a declinar. É nesse ano que as forças progressistas irão vencer as maiores e mais importantes eleições municipais desse país, começando assim um novo ciclo de mudanças e reestruturações dessa sociedade.
Esse é o ano da minha faculdade, e é esse o ano que eu espero que seja marcante pra mim, de todas as formas. É nesse ano que eu quero que as coisas mais maravilhosas comecem a acontecer na minha vida...
É nesse ano que minha vida começa de novo... com todos os erros e acertos que uma vida nova inflige.
Estou com medo...

postado por Leandro Durazzo 12:00 AM
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